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Qui, Dez
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Episódios do Escritor João Marcelo- Doces Recordações de PARANAÍ

História
Tipografia

DOCES RECORDAÇÔES DE PARANAÌ- POR JOÃO MARCELO.

 Adrianópolis /PR e Rio Ribeira. 

Episódio 7: Sabores & Aromas

Tenho gravado em minha memória, passagens de minha infância, imagens de lugares e pessoas com as quais tive o privilégio da convivência.

Trago encalacrado em mim, traços e costume, paladares e olfatos, sabores e aromas, os quais eu tenho enorme facilidade na identificação.
De nossos sentidos, ou seja, a visão, a audição, o tato, o olfato e o paladar eu acredito que o paladar e o olfato desenvolvam num constante experimentar. Na minha infância, provei e degustei comidas típicas da região do Vale do Ribeira. Descobri sabores e aromas, doces e salgados.
Na primeira infância, até por volta dos meus sete anos, morando na Plumbum (vila do Alto) lembro bem da merenda escolar, lá no Grupo Escolar AdrianoSeabra  da Fonseca, todos os dias as merendeiras com presteza e dedicação, o alimento, nos ofertavam. Destes , tenho no paladar a sopa de fubá, carregada na cebola e ovos "estalados". Era muito bom!
Lembro com carinho da professora Cida (Aparecida), a qual me acompanhou já na pré-alfabetização. Dedicava sua atenção, como num pré-primário, com atividades motoras de cortar e colar. Veio a ser a professora responsável pela minha alfabetização, já na metodologia da cartilha "Caminho Suave".
Nesta época, fui apresentado a um doce saboroso, oriundo de uma fruta nativa e abundante na região, a banana. Eram maravilhosos, os sonhos fritos e recheados com este doce e envoltos no açúcar com canela.
Já morando na sede do município, ou seja, em Paranaí tive proximidade com muitos sabores e aromas.
Fui contemplado com uma infância livre, típica de uma criança do interior, de uma pequena cidade. Fui de andar "pé no chão", estilingue no pescoço, comer frutas no pé. Não existiam os temores e neuroses atuais.
Esta liberdade proporcionou aventurar e fazer descobertas. Ao chegar ao Carumbé, deparei com uma abundância de frutas, principalmente bananas e goiabas.
Vindo da Plumbum à esquerda, descendo o morro existia a Casa Grande, era assim que a chamávamos. Infelizmente em 2010 quando aí estive só restavam ruinas. Margeando a estrada e morrendo no ribeirão, num formato triangular existia um bananal rico em espécies. Era possível encontrar nanica, ouro, prata, maça e até "da terra". Estas últimas são aquelas cortadas em tiras, as quais fritas, são uma saborosa sobremesa.
Já do outro lado da estrada, ou seja, fazendo fundo para o rio Ribeira no entorno da casa em que morei, havia inúmeras goiabeiras, tanto da branca como vermelha. Desta casa nem vestígios mais existem.
As estadias de minha avó Geralda na fazenda eram um "assoprar no tição e um chamuscar de tacho". Era um fazer doces, de toda e qualquer fruta, que a natureza na sua generosidade ofertasse.
Nestas oportunidades, eu propunha a ajuda-la, mas o mexer constante, o calor e os respingos quentes e grudentos eram incômodos e monótonos, então eu logo desistia.
Minha avó era uma pessoa extremamente organizada. Ela possuía umas "caxetas" de madeira com tampas deslizantes. Estas caixas forradas com papel manteiga acondicionavam os doces preparados.
No final da primavera e início do verão, cruzando o ribeirão Carumbé adentrávamos nas terras do pai da Selma, o senhor Valério Mottin. Margeando e subindo o ribeirão, logo inúmeras e carregadas Jabuticabeiras encontrávamos, estas por informações recebidas, surpreendentemente são existentes e ainda produtivas.
Com a inocência de uma criança, confesso que muitas vezes tal propriedade eu e muitos outros "pias" invadimos e pelos galhos destas Jabuticabeiras muito nos deliciamos.
Os nipônicos cultuam como ritual, a florada da Cerejeira (o Sakura), o qual ocorre sempre em agosto. Então questiono: Seriam mais belas que a florada das Jabuticabeiras? Além de todo o caule e galhos recobertos pelas pequenas flores, no seu tom marfim. Temos o zumbido das abelhas num constante voar, seduzidas pelo néctar a exalar seu agradabilíssimo perfume.
Longe de criar uma polêmica, deixo esta indagação e que cada um, posicione como quiser.
Chegando à Barra Grande tomando a bifurcação para o Descampado e Epitácio, logo à frente e a direita, dando fundo para o ribeirão, existia o sítio de "seo" Natalino. Tive a oportunidade de perceber e presenciar a exuberância daquele sítio, o qual era um verdadeiro pomar, com muitas frutas, hortaliças e legumes.
Pela estrada do Descampado muito passei. Na aurora do amanhecer, ainda sem o sol apontar no horizonte e a brisa da manhã no rosto a bater, junto de meu pai Zé Waldir e alguns camaradas, de trator seguíamos para a fazenda Santa Bárbara. Era outra propriedade de meu avô, usada na invernada de bezerros desmamados.
Era a última propriedade de uma estradinha, ao chegar deparávamos com um riachinho afluente do Ribeirão Grande. Imediatamente antes e a direita, próximo da estrada via se o estábulo e a casa do João Lica, moço bacana, prestativo e amicíssimo de meu pai. Ao retornarmos para o vale do Paraíba, o João Lica foi o adquirente destas terras, anexando as suas já existentes.
Na fazenda Santa Bárbara existiam alguns pés de Mexericas, eram de fruto grande e de casaca grossa, rugosa e verdolenga, mas de um sabor inquestionável.
Quando estavam formalizando o cooperativismo, embrião e origem da Cooperativa de Laticínio, meu pai muito andou pelos sertões e comunidades rurais. Quando eu tinha oportunidade, adorava acompanha-lo.
Numa destas oportunidades estivemos na cidade de Itaoca, tomamos a balsa para cruzar o Ribeira. O balseiro num esforço braçal de puxar fazia movimentar as carretilhas suspensas sobre o cabo de aço, como uma tirolesa fosse. Assim como resultante vetorial das componentes das forças, os flutuadores da balsa deslizavam sobre as águas vencendo e alcançando a outra margem.
Lá em Itaoca tivemos na casa do "seo" Alberto, o qual conjuntamente com seu irmão Manuel, tornaria os responsáveis pela coleta diária do leite até a câmara fria na fazenda Carumbé, e na madrugada seguinte transportariam para a Cooperativa em Curitiba. Foram verdadeiros desbravadores.
Nesta época o "seo" Alberto fabricava queijos. Ao chegarmos a sua casa deparamos dependurados no teto, girais similares a defumadores. Estes suportavam muitos queijos no processo de cura, era do tipo "Cabaça". Degustamos um formidável "meia cura" de cascas grossa e interior tenro.
Tenho Itaoca como cenário de outra passagem, uma visita ao futuro proprietário do Carumbé, o Januário Trannin. Em sua fazenda chegamos já no crepúsculo.
A casa sede era um majestoso sobrado pintado na cor rosa. Ao seu redor existia um enorme terreiro calçado. Destes utilizados para secar grãos, como o café e o feijão. Logo algo chamou minha atenção, num canto e na borda do terreiro jazia a carcaça de um caminhãozinho calhambeque. Não me contive e a ele me dirigi e já sentado na cabine, flutuei em imaginação.
Anexo a casa existia uma enorme cozinha, nesta oportunidade degustei costelinha de porco frita envolta na farinha de milho e também torresmo.
Já noite alta ao retornar, na barranca do rio deparamos com a balsa apoitada na outra margem. Foi um relampejar de farol e berros a ecoar. Enquanto a balsa em nossa direção sobre o rio deslizava, na luz do luar o Ribeira nos brindava, com suas águas como espelho refletindo o bailar das nuvens soltas ao vento.

Episódio8: O Aparteador

 Como morador em fazenda, tive poucas oportunidades de "pegar no batente", abraçar a"lida". Naturalmente era trabalho bastante pesado para uma criança. Mesmo assim quando convocado, não fugia da briga, gostava e ajudava de bom grado.

Destas convocações, a atividade que mais me agradava era apartar bezerros.

Ao entardecer os bezerros eram retirados dos piquetes, onde após a ordenha eram mantidos. Então recolhidos no curral, ficavam em área coberta até a aurora seguinte, quando nova ordenha iniciava.

O processo de ordenha exigia critério e uma sequência lógica a seguir, era achamada "ordem de ordenha". A destreza do aparteador estava em conhecer cada bezerro e conforme o nome da vaca, pelos camaradas era "cantado", liberar sua correspondente cria para então esta ordenha iniciar.

Nestes momentos pude observar situações as quais me impressionaram, a força dos laços afetivos de um animal e sua cria. Bezerros de dias, com o cordão umbilical á secar e ainda num andar vacilante, pelo olfato e ou pela sonoridade do berro,entre dezenas de vacas sua mãe logo identificava.

Tempos depois passei a entender o propósito da "ordem de ordenha". O objetivo era manter um mix homogêneo do leite, coletado em cada tambor. Considerava aí: o período lactante de cada animal, a capacidade produtiva em volume e o índice de gordura.

No laticínio em Curitiba, cada tambor de leite era analisado e classificado com base no índice de gordura contida. Isto determinava a qualidade do leite,portanto o valor a ser pago ao correspondente produtor.

Neste relato, não poderia deixar de lembrar-se dos camaradas, os quais na fazenda,muito ajudaram meu pai. Destes destaco em especial, o "seo" Alcides e o ZéÂngelo. Pessoas simples, as quais combinavam com a atmosfera desta terra. Eram pessoas responsáveis, determinadas e imbuídas de propósitos. Tentarei descrever um pouco as características e valores de cada um:

O "seo" Alcides era o braço direito de meu pai, era o coordenador na ordenha, com atenção a todos os procedimentos que o leite exigia. Sua filha Maria veio trabalhar em casa,moça de temperamento forte, organizada e caprichosa. Com certeza com valores adquiridos e herdados de seu pai.

Minha mãe como professora dava aula em dois períodos, não tinha muito foco nos afazeres da casa. Ela alegrava e surpreendia em ver a casa tão bem cuidada. Alimpeza do assoalho, panos de prato alvejados numa brancura total. Nos quartos as sapateiras feitas de sacos, dependuradas atrás das portas, sempre lavadas,limpas. Nestas repousavam pares de sapatos, rigorosamente ordenados e limpos.Minha mãe sempre dizia "a dona da casa é a Maria".

O Zé Ângelo era "pau pra toda obra", encarava as atribuições delegadas. Quando veio trabalhar na fazenda, omitiu não saber nada da "lida" com animais.

Nos primeiros dias de trabalho, uma vaca perdida e desgarrada pelos pastos montanha acima ficou. Lá foi o Zé Ângelo no lombo do cavalo tordilho manga larga,chamado Guarani. Pensativo e no sacolejar a vaca foi buscar. Passado algum tempo, mais adaptado e seguro no manejo diário, ao meu pai o ocorrido confessou.

Quando do nosso retorno em definitivo aqui para o leste paulista, sei que o Dr Oto o"seo" Alcides para a Plumbum levou. Já o Zé Ângelo na prefeitura deAdrianópolis foi trabalhar.

Saibam os dois e ou seus descendentes que o "seo" Waldir, meu pai, dedica a vocês um especial apreço, sempre relembrando fatos.

Ficam aí fragmentos de um cotidiano vivido...