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Seg, Dez
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Instantes de uma infância (Por João Marcelo Ferraz de Campos).

História
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Episódio 5: Carumbé, um ribeirão...

Ribeirão por vezes de águas escuras, conseqüência da varredura das águas ao longo de seu curso, abraçando a mata, beijando árvores e retirando das margens todo o material orgânico sedimentado. Em outras de águas barrentas, denunciando a ocorrência de fortes chuvas serra acima, sobre sua cabeceira e afluentes.

Ribeirão de águas cantantes, seixos rolantes. De corredeiras rasas com um espumar prateado, processo natural de aeração, oxigenando suas águas e potencializando a vida.

Pelos pastos da fazenda Carumbé muitas trilhas existiam, conseqüência de uma das características natural do homem, a mobilidade. Algumas destas obstruídas e interrompidas pelo ribeirão. Assim, pelo seu leito presenciei a manifestação e o exercício da criatividade se opondo e vencendo adversidades.

O Caboclo na sua simplicidade e rudez, sem saber intuitivamente aplicava a Engenharia.

Na oferenda da natureza, escolhiam sabiamente árvores de caule único. Normalmente escolhia a árvore ideal, o Guapiruvú. Num esforço braçal, após o corte arrastavam estas torras, posicionando-as na transversal sobre o leito e entre bordas do ribeirão.

Pronto! A continuidade das trilhas estava assegurada. Estava também construída uma "pinguela", é assim que são conhecidos estes artifícios de transposição.

Algumas destas "pinguelas" apresentavam certo grau de sofisticação. Para maior segurança e conforto continham também balaústres e corrimão. Tudo firmemente solidário e bem amarrado com cipó.

Não sei precisar em qual período do ano, ao entardecer pelas trilhas que margeavam o leito do Carumbé dezenas de pessoas, homens e mulheres, adultos e crianças para a barra deste ribeirão dirigiam-se.

Distribuídos pelos barrancos, ou mesmo com água pelas canelas, todos lançavam suas varas de pescar ou mesmo linhadas de mão, era um constante capturar de Lambaris e "Cadelas". Assim chamavam uma espécie de Lambari, que na linha da espinha até a calda apresentavam uma coloração avermelhada e na boca muitos dentes.

Isto emoldurado pela montanha de mata virgem avistada na outra margem do Ribeira, com rugidos de macacos a ouvir. No oeste o sol a deitar, refletindo um espectro dourado sobre as águas.

 

Episódio 6: O Poço...

Indistintamente o Carumbé com suas águas ofertava a todos. Em seu curso, numa constância paciente e natural criava e recriava praias, remansos e poços. Destes imagino o "poço da ponte" ser o principal.

Era uma piscina natural. Um espaço de lazer onde todos tinham acesso era só chegar e usufruir.

Ali nas tardes de domingo, sobre o sol de verão a alegria pairava pelo ar. O burburinho, o falar das pessoas dava uma alegre sonoridade ao ambiente. Eram pessoas banhando o corpo e refestelando se no refrigério das águas. O semblante das pessoas demonstrava um bem estar, um renascimento para a nova semana com seus afazeres e preocupações enfrentar.

A consciência do bem coletivo ali era exercitada. Cada qual ao seu modo, sem normas ou regras, contribuía para manter o dique de pedras, responsável pela contenção das águas.

Quem sobre a ponte do alto olhava, podia observar seixos empilhados numa geometria livre, descrevendo uma linha sinuosa emergindo a superfície, interligando as margens e naturalmente represando as águas.

Alguns metros abaixo, carros e caminhões disputando espaços sobre as águas. Seus proprietários com canecas e baldes nas mãos a lava- los.

Nestas águas muito me banhei e brinquei, pude conhecer pessoas, observar comportamentos e características.

Lembro-me de um rapaz chamado Odair, que ao entardecer ao poço vinha se banhar. Com peculiar trejeito possuía um estilo de nadar nada clássico. Era um puxar com as mãos e bater simultaneamente com os dois pés sobre a superfície d'água, projetando seu corpo à frente em solavancos. Tal conduta espirava água a uma altura considerável, atingindo pessoas que lá no alto, do gradil da ponte observava.

Em certas ocasiões, num quase engatinhar, contra a correnteza ele subia o ribeirão, tateando as barrancas argilosas de suas margens.

Das tocas encontradas, com as mãos capturava um peixe de aparência feia, quase pré-histórica. Eram os Cascudos. Num sorriso de satisfação dizia: "um belo ensopado será feito".

O que vou relatar a seguir pode parecer "conversa de pescador", mas acreditem! É verdade verdadeira.

Meu avô ao planejar seu retorno aqui para a cidade de Mogi das Cruzes tinha por hábito alguns rituais, entre estes no Carumbé seu carro lavar. Numa destas oportunidades meu tio Josemir, a pedido de meu avô, com a Kombi para as águas do Carumbé rumou.

Como de costume, no meio do ribeirão parou. Águas em corredeiras, com seu nível no meio das rodas a bater. Portas abertas, tapetes de borracha retirados, lavados e na barranca sobre arbustos a secar.

A porta lateral do compartimento de passageiros, com suas folhas duplas escancaradas, engoliam uma fina lamina d'água que estendia sobre e por todo assoalho corrugado.

Após muito bater água, esfregar e ensaboar a lavagem chegava ao seu final. Agora era retirar o carro das águas. Alguns metros no seco em suave aclive era observar o escorrer, o molhar do chão, dando ao saibro uma coloração forte alaranjada.

Na madrugada seguinte meu avô partiu. Chegando aqui, na atribulação e no muito fazer, após dois ou três dias decide a Kombi lavar. Passado algumas horas, Kombi lavada era hora de no posto buscá-la. Lá chegando, todos queriam saber por onde aquela Kombi andou.

Desconfiado e curioso pela indagação, ele explicou que no vale do Ribeira, na cidade de Adrianópolis esteve. A seguir aparece um lavador com um balde nas mãos a mostrar, um Cascudo vivo na água a nadar.