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Qua, Abr
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DOCES RECORDAÇÔES DE PARANAÌ- POR JOÃO MARCELO.

 Adrianópolis /PR e Rio Ribeira. 

Episódio 7: Sabores & Aromas

Tenho gravado em minha memória, passagens de minha infância, imagens de lugares e pessoas com as quais tive o privilégio da convivência.

Trago encalacrado em mim, traços e costume, paladares e olfatos, sabores e aromas, os quais eu tenho enorme facilidade na identificação.
De nossos sentidos, ou seja, a visão, a audição, o tato, o olfato e o paladar eu acredito que o paladar e o olfato desenvolvam num constante experimentar. Na minha infância, provei e degustei comidas típicas da região do Vale do Ribeira. Descobri sabores e aromas, doces e salgados.
Na primeira infância, até por volta dos meus sete anos, morando na Plumbum (vila do Alto) lembro bem da merenda escolar, lá no Grupo Escolar AdrianoSeabra  da Fonseca, todos os dias as merendeiras com presteza e dedicação, o alimento, nos ofertavam. Destes , tenho no paladar a sopa de fubá, carregada na cebola e ovos "estalados". Era muito bom!
Lembro com carinho da professora Cida (Aparecida), a qual me acompanhou já na pré-alfabetização. Dedicava sua atenção, como num pré-primário, com atividades motoras de cortar e colar. Veio a ser a professora responsável pela minha alfabetização, já na metodologia da cartilha "Caminho Suave".
Nesta época, fui apresentado a um doce saboroso, oriundo de uma fruta nativa e abundante na região, a banana. Eram maravilhosos, os sonhos fritos e recheados com este doce e envoltos no açúcar com canela.
Já morando na sede do município, ou seja, em Paranaí tive proximidade com muitos sabores e aromas.
Fui contemplado com uma infância livre, típica de uma criança do interior, de uma pequena cidade. Fui de andar "pé no chão", estilingue no pescoço, comer frutas no pé. Não existiam os temores e neuroses atuais.
Esta liberdade proporcionou aventurar e fazer descobertas. Ao chegar ao Carumbé, deparei com uma abundância de frutas, principalmente bananas e goiabas.
Vindo da Plumbum à esquerda, descendo o morro existia a Casa Grande, era assim que a chamávamos. Infelizmente em 2010 quando aí estive só restavam ruinas. Margeando a estrada e morrendo no ribeirão, num formato triangular existia um bananal rico em espécies. Era possível encontrar nanica, ouro, prata, maça e até "da terra". Estas últimas são aquelas cortadas em tiras, as quais fritas, são uma saborosa sobremesa.
Já do outro lado da estrada, ou seja, fazendo fundo para o rio Ribeira no entorno da casa em que morei, havia inúmeras goiabeiras, tanto da branca como vermelha. Desta casa nem vestígios mais existem.
As estadias de minha avó Geralda na fazenda eram um "assoprar no tição e um chamuscar de tacho". Era um fazer doces, de toda e qualquer fruta, que a natureza na sua generosidade ofertasse.
Nestas oportunidades, eu propunha a ajuda-la, mas o mexer constante, o calor e os respingos quentes e grudentos eram incômodos e monótonos, então eu logo desistia.
Minha avó era uma pessoa extremamente organizada. Ela possuía umas "caxetas" de madeira com tampas deslizantes. Estas caixas forradas com papel manteiga acondicionavam os doces preparados.
No final da primavera e início do verão, cruzando o ribeirão Carumbé adentrávamos nas terras do pai da Selma, o senhor Valério Mottin. Margeando e subindo o ribeirão, logo inúmeras e carregadas Jabuticabeiras encontrávamos, estas por informações recebidas, surpreendentemente são existentes e ainda produtivas.
Com a inocência de uma criança, confesso que muitas vezes tal propriedade eu e muitos outros "pias" invadimos e pelos galhos destas Jabuticabeiras muito nos deliciamos.
Os nipônicos cultuam como ritual, a florada da Cerejeira (o Sakura), o qual ocorre sempre em agosto. Então questiono: Seriam mais belas que a florada das Jabuticabeiras? Além de todo o caule e galhos recobertos pelas pequenas flores, no seu tom marfim. Temos o zumbido das abelhas num constante voar, seduzidas pelo néctar a exalar seu agradabilíssimo perfume.
Longe de criar uma polêmica, deixo esta indagação e que cada um, posicione como quiser.
Chegando à Barra Grande tomando a bifurcação para o Descampado e Epitácio, logo à frente e a direita, dando fundo para o ribeirão, existia o sítio de "seo" Natalino. Tive a oportunidade de perceber e presenciar a exuberância daquele sítio, o qual era um verdadeiro pomar, com muitas frutas, hortaliças e legumes.
Pela estrada do Descampado muito passei. Na aurora do amanhecer, ainda sem o sol apontar no horizonte e a brisa da manhã no rosto a bater, junto de meu pai Zé Waldir e alguns camaradas, de trator seguíamos para a fazenda Santa Bárbara. Era outra propriedade de meu avô, usada na invernada de bezerros desmamados.
Era a última propriedade de uma estradinha, ao chegar deparávamos com um riachinho afluente do Ribeirão Grande. Imediatamente antes e a direita, próximo da estrada via se o estábulo e a casa do João Lica, moço bacana, prestativo e amicíssimo de meu pai. Ao retornarmos para o vale do Paraíba, o João Lica foi o adquirente destas terras, anexando as suas já existentes.
Na fazenda Santa Bárbara existiam alguns pés de Mexericas, eram de fruto grande e de casaca grossa, rugosa e verdolenga, mas de um sabor inquestionável.
Quando estavam formalizando o cooperativismo, embrião e origem da Cooperativa de Laticínio, meu pai muito andou pelos sertões e comunidades rurais. Quando eu tinha oportunidade, adorava acompanha-lo.
Numa destas oportunidades estivemos na cidade de Itaoca, tomamos a balsa para cruzar o Ribeira. O balseiro num esforço braçal de puxar fazia movimentar as carretilhas suspensas sobre o cabo de aço, como uma tirolesa fosse. Assim como resultante vetorial das componentes das forças, os flutuadores da balsa deslizavam sobre as águas vencendo e alcançando a outra margem.
Lá em Itaoca tivemos na casa do "seo" Alberto, o qual conjuntamente com seu irmão Manuel, tornaria os responsáveis pela coleta diária do leite até a câmara fria na fazenda Carumbé, e na madrugada seguinte transportariam para a Cooperativa em Curitiba. Foram verdadeiros desbravadores.
Nesta época o "seo" Alberto fabricava queijos. Ao chegarmos a sua casa deparamos dependurados no teto, girais similares a defumadores. Estes suportavam muitos queijos no processo de cura, era do tipo "Cabaça". Degustamos um formidável "meia cura" de cascas grossa e interior tenro.
Tenho Itaoca como cenário de outra passagem, uma visita ao futuro proprietário do Carumbé, o Januário Trannin. Em sua fazenda chegamos já no crepúsculo.
A casa sede era um majestoso sobrado pintado na cor rosa. Ao seu redor existia um enorme terreiro calçado. Destes utilizados para secar grãos, como o café e o feijão. Logo algo chamou minha atenção, num canto e na borda do terreiro jazia a carcaça de um caminhãozinho calhambeque. Não me contive e a ele me dirigi e já sentado na cabine, flutuei em imaginação.
Anexo a casa existia uma enorme cozinha, nesta oportunidade degustei costelinha de porco frita envolta na farinha de milho e também torresmo.
Já noite alta ao retornar, na barranca do rio deparamos com a balsa apoitada na outra margem. Foi um relampejar de farol e berros a ecoar. Enquanto a balsa em nossa direção sobre o rio deslizava, na luz do luar o Ribeira nos brindava, com suas águas como espelho refletindo o bailar das nuvens soltas ao vento.

Episódio8: O Aparteador

 Como morador em fazenda, tive poucas oportunidades de "pegar no batente", abraçar a"lida". Naturalmente era trabalho bastante pesado para uma criança. Mesmo assim quando convocado, não fugia da briga, gostava e ajudava de bom grado.

Destas convocações, a atividade que mais me agradava era apartar bezerros.

Ao entardecer os bezerros eram retirados dos piquetes, onde após a ordenha eram mantidos. Então recolhidos no curral, ficavam em área coberta até a aurora seguinte, quando nova ordenha iniciava.

O processo de ordenha exigia critério e uma sequência lógica a seguir, era achamada "ordem de ordenha". A destreza do aparteador estava em conhecer cada bezerro e conforme o nome da vaca, pelos camaradas era "cantado", liberar sua correspondente cria para então esta ordenha iniciar.

Nestes momentos pude observar situações as quais me impressionaram, a força dos laços afetivos de um animal e sua cria. Bezerros de dias, com o cordão umbilical á secar e ainda num andar vacilante, pelo olfato e ou pela sonoridade do berro,entre dezenas de vacas sua mãe logo identificava.

Tempos depois passei a entender o propósito da "ordem de ordenha". O objetivo era manter um mix homogêneo do leite, coletado em cada tambor. Considerava aí: o período lactante de cada animal, a capacidade produtiva em volume e o índice de gordura.

No laticínio em Curitiba, cada tambor de leite era analisado e classificado com base no índice de gordura contida. Isto determinava a qualidade do leite,portanto o valor a ser pago ao correspondente produtor.

Neste relato, não poderia deixar de lembrar-se dos camaradas, os quais na fazenda,muito ajudaram meu pai. Destes destaco em especial, o "seo" Alcides e o ZéÂngelo. Pessoas simples, as quais combinavam com a atmosfera desta terra. Eram pessoas responsáveis, determinadas e imbuídas de propósitos. Tentarei descrever um pouco as características e valores de cada um:

O "seo" Alcides era o braço direito de meu pai, era o coordenador na ordenha, com atenção a todos os procedimentos que o leite exigia. Sua filha Maria veio trabalhar em casa,moça de temperamento forte, organizada e caprichosa. Com certeza com valores adquiridos e herdados de seu pai.

Minha mãe como professora dava aula em dois períodos, não tinha muito foco nos afazeres da casa. Ela alegrava e surpreendia em ver a casa tão bem cuidada. Alimpeza do assoalho, panos de prato alvejados numa brancura total. Nos quartos as sapateiras feitas de sacos, dependuradas atrás das portas, sempre lavadas,limpas. Nestas repousavam pares de sapatos, rigorosamente ordenados e limpos.Minha mãe sempre dizia "a dona da casa é a Maria".

O Zé Ângelo era "pau pra toda obra", encarava as atribuições delegadas. Quando veio trabalhar na fazenda, omitiu não saber nada da "lida" com animais.

Nos primeiros dias de trabalho, uma vaca perdida e desgarrada pelos pastos montanha acima ficou. Lá foi o Zé Ângelo no lombo do cavalo tordilho manga larga,chamado Guarani. Pensativo e no sacolejar a vaca foi buscar. Passado algum tempo, mais adaptado e seguro no manejo diário, ao meu pai o ocorrido confessou.

Quando do nosso retorno em definitivo aqui para o leste paulista, sei que o Dr Oto o"seo" Alcides para a Plumbum levou. Já o Zé Ângelo na prefeitura deAdrianópolis foi trabalhar.

Saibam os dois e ou seus descendentes que o "seo" Waldir, meu pai, dedica a vocês um especial apreço, sempre relembrando fatos.

Ficam aí fragmentos de um cotidiano vivido...

 

Episódio 5: Carumbé, um ribeirão...

Ribeirão por vezes de águas escuras, conseqüência da varredura das águas ao longo de seu curso, abraçando a mata, beijando árvores e retirando das margens todo o material orgânico sedimentado. Em outras de águas barrentas, denunciando a ocorrência de fortes chuvas serra acima, sobre sua cabeceira e afluentes.

Ribeirão de águas cantantes, seixos rolantes. De corredeiras rasas com um espumar prateado, processo natural de aeração, oxigenando suas águas e potencializando a vida.

Pelos pastos da fazenda Carumbé muitas trilhas existiam, conseqüência de uma das características natural do homem, a mobilidade. Algumas destas obstruídas e interrompidas pelo ribeirão. Assim, pelo seu leito presenciei a manifestação e o exercício da criatividade se opondo e vencendo adversidades.

O Caboclo na sua simplicidade e rudez, sem saber intuitivamente aplicava a Engenharia.

Na oferenda da natureza, escolhiam sabiamente árvores de caule único. Normalmente escolhia a árvore ideal, o Guapiruvú. Num esforço braçal, após o corte arrastavam estas torras, posicionando-as na transversal sobre o leito e entre bordas do ribeirão.

Pronto! A continuidade das trilhas estava assegurada. Estava também construída uma "pinguela", é assim que são conhecidos estes artifícios de transposição.

Algumas destas "pinguelas" apresentavam certo grau de sofisticação. Para maior segurança e conforto continham também balaústres e corrimão. Tudo firmemente solidário e bem amarrado com cipó.

Não sei precisar em qual período do ano, ao entardecer pelas trilhas que margeavam o leito do Carumbé dezenas de pessoas, homens e mulheres, adultos e crianças para a barra deste ribeirão dirigiam-se.

Distribuídos pelos barrancos, ou mesmo com água pelas canelas, todos lançavam suas varas de pescar ou mesmo linhadas de mão, era um constante capturar de Lambaris e "Cadelas". Assim chamavam uma espécie de Lambari, que na linha da espinha até a calda apresentavam uma coloração avermelhada e na boca muitos dentes.

Isto emoldurado pela montanha de mata virgem avistada na outra margem do Ribeira, com rugidos de macacos a ouvir. No oeste o sol a deitar, refletindo um espectro dourado sobre as águas.

 

Episódio 6: O Poço...

Indistintamente o Carumbé com suas águas ofertava a todos. Em seu curso, numa constância paciente e natural criava e recriava praias, remansos e poços. Destes imagino o "poço da ponte" ser o principal.

Era uma piscina natural. Um espaço de lazer onde todos tinham acesso era só chegar e usufruir.

Ali nas tardes de domingo, sobre o sol de verão a alegria pairava pelo ar. O burburinho, o falar das pessoas dava uma alegre sonoridade ao ambiente. Eram pessoas banhando o corpo e refestelando se no refrigério das águas. O semblante das pessoas demonstrava um bem estar, um renascimento para a nova semana com seus afazeres e preocupações enfrentar.

A consciência do bem coletivo ali era exercitada. Cada qual ao seu modo, sem normas ou regras, contribuía para manter o dique de pedras, responsável pela contenção das águas.

Quem sobre a ponte do alto olhava, podia observar seixos empilhados numa geometria livre, descrevendo uma linha sinuosa emergindo a superfície, interligando as margens e naturalmente represando as águas.

Alguns metros abaixo, carros e caminhões disputando espaços sobre as águas. Seus proprietários com canecas e baldes nas mãos a lava- los.

Nestas águas muito me banhei e brinquei, pude conhecer pessoas, observar comportamentos e características.

Lembro-me de um rapaz chamado Odair, que ao entardecer ao poço vinha se banhar. Com peculiar trejeito possuía um estilo de nadar nada clássico. Era um puxar com as mãos e bater simultaneamente com os dois pés sobre a superfície d'água, projetando seu corpo à frente em solavancos. Tal conduta espirava água a uma altura considerável, atingindo pessoas que lá no alto, do gradil da ponte observava.

Em certas ocasiões, num quase engatinhar, contra a correnteza ele subia o ribeirão, tateando as barrancas argilosas de suas margens.

Das tocas encontradas, com as mãos capturava um peixe de aparência feia, quase pré-histórica. Eram os Cascudos. Num sorriso de satisfação dizia: "um belo ensopado será feito".

O que vou relatar a seguir pode parecer "conversa de pescador", mas acreditem! É verdade verdadeira.

Meu avô ao planejar seu retorno aqui para a cidade de Mogi das Cruzes tinha por hábito alguns rituais, entre estes no Carumbé seu carro lavar. Numa destas oportunidades meu tio Josemir, a pedido de meu avô, com a Kombi para as águas do Carumbé rumou.

Como de costume, no meio do ribeirão parou. Águas em corredeiras, com seu nível no meio das rodas a bater. Portas abertas, tapetes de borracha retirados, lavados e na barranca sobre arbustos a secar.

A porta lateral do compartimento de passageiros, com suas folhas duplas escancaradas, engoliam uma fina lamina d'água que estendia sobre e por todo assoalho corrugado.

Após muito bater água, esfregar e ensaboar a lavagem chegava ao seu final. Agora era retirar o carro das águas. Alguns metros no seco em suave aclive era observar o escorrer, o molhar do chão, dando ao saibro uma coloração forte alaranjada.

Na madrugada seguinte meu avô partiu. Chegando aqui, na atribulação e no muito fazer, após dois ou três dias decide a Kombi lavar. Passado algumas horas, Kombi lavada era hora de no posto buscá-la. Lá chegando, todos queriam saber por onde aquela Kombi andou.

Desconfiado e curioso pela indagação, ele explicou que no vale do Ribeira, na cidade de Adrianópolis esteve. A seguir aparece um lavador com um balde nas mãos a mostrar, um Cascudo vivo na água a nadar.

INSTANTES DE UMA INFÃNCIA POR JOÃO MARCELO FERRAZ DE CAMPOS.

A região do "Vale do Ribeira" esteve no foco das Forças Armadas. Após o golpe militar de 1964, organizações de guerrilha armada de extrema-esquerda, buscaram estabelecer e instalar nesta região bases de treinamento militar e de difusão das teorias marxista.

O serviço de inteligência das Forças Armadas identificou o Vale do Ribeira como sendo uma das regiões para a instalação destas bases e centro de treinamento de guerrilheiros. Isto, após a prissão de integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), na cidade do Rio de Janeiro, incluindo integrantes do comando nacional.

Em abril de 1969, o capitão Lamarca já na condição de desertor do Exercíto Brasileiro e como lider da VPR se instala no sertão próximo ao vilarejo de Barra do Areado. Na caça aos guerrilheiros, as Forças Armadas tomam o vale do Ribeira, executam comandos e bloqueiam estradas. Houve confrontos nas barreiras e comandos montados em Eldorado Paulista e Sete Barras. Ocorreram mortes, feridos e aprisionados.

A busca pelos guerrilheiros se intensificava, novos comandos nas estradas obrigam a se embrenhar pelas matas. Por vezes tentaram descer a algum povoado para comprar comida, mas eram denunciados. Emboscados, o rompimento final do cerco se deu 41 dias depois do início do mesmo.

Em 31 de maio, famintos e cansados o grupo resolveu tentar a sorte na estrada. Alguns tomam o ônibus da linha Sete Barras-São Miguel sem ser incomodados. Outros incluindo Lamarca resolvem parar qualquer veículo que viesse pela estrada e tomá-lo. O primeiro a aparecer foi justamente um caminhão do Exército. Seus ocupantes, cinco soldados foram rendidos. O grupo agora vestidos com os uniformes da patrulha, seguem até darem com a última barreira perto de Taquaral. Sem maiores averiguações, a barreira foi aberta.

Naquela mesma noite, os guerrilheiros abandonavam o veículo na Marginal Tietê na cidade de São Paulo, com os soldados prisioneiros dentro. Lamarca e seus homens tinham escapado da maior mobilização da história do II Exército.

Perseguido por mais de dois anos pelos militares, Lamarca foi localizado e morto no interior da Bahia em 17 de setembro de 1971.

Este episódio recente da história nacional teve reflexo em Paranaí. Lembro que tivemos por pelo menos duas oportunidades, o Exercíto efetuando manobras e exercícios no município.

Para a localidade esta movimentação era um evento, pois quebrava a rotina cadenciada no compasso do tempo. Imagine para uma criança que tudo é novidade, ter a oportunidade de defrontar com um cenário militar, visualizando barracas de campana, equipamentos bélicos como metralhadoras, Jeeps e caminhões além dos próprios soldados com suas fardas e adereços.

O Comando Militar pela localização estratégica, fixava sua Base de Operações na entrada da cidade, exatamente na bifurcação Curitiba/ Plumbum/ Paranaí.

Sentido cidade à esquerda e no pé do "morro da antena" existia uma solitária e típica casa "sulista". Destas de taboas a prumo, frestas arrematadas por ripas e apoiada sobre pilares de tijolos. Apresentava um telhado com forte inclinação e também sotão. Suas paredes eram caiadas num rosa queimado e portas e janelas num verde escuro. Nestas ocasiões o Comando Militar dela se apossava, armando suas barracas e tendas no seu entorno. Salvo engano seu proprietário era o avô do Délcio Lara.

Neste período eu meus irmãos Zé Waldir e Bárbara tinhamos como diversão arrumar cestas de fruta e também garrafas de leite, coisas abundantes na fazenda, para ao passar pela barreira militar ofertar aos soldados.

Intuitivamante era o exercício da diplomacia, da política da boa vizinhança. Acredito que este comportamento estava empregnado no ar, era uma caracterítica local. A carência de recursos, a dificuldade de acesso desenvolveu no povo um senso de ajuda mútua, um solidarismo diferenciado.

Após este gesto de acolhida, sempre que aproximavamos tinhamos passagem livre.

Os soldados na maioria eram recrutas, jovens no exercício do alistamento militar obrigatório, com certeza não tinham convicções políticas e ou ideológicas. Isto remete a minha adolecência, década de 80, época que o movimento sindical operário foi intenso. Entre as músicas hino, tinha: Para Não Dizer Que Não Falei das Flores, onde em uma estrofe diz:

"Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer" (Geraldo Vandré)

Assim como chegavam, após algumas semanas como trupe mambembe partiam. Paranaí em sua rotina voltava.

 

 Foto cedida pelo Autor João Marcelo Ferraz de Campos.

 

 Dando sequência a História narrada pelo escritor João Marcelo Ferraz  de Campos que nos premiou com "Relembrando os velhos tempos de Paranaí", agora teremos outros e na medida do possível ainda muitos outros contos do autor que descreve em detalhes  as lembranças aqui vividas nos tempos de PARANAÍ..

Introdução

Ninguém pode roubar de nossa memória, a nossa história com seus momentos mágicos. Isto são instantes de lembranças da criança que habita este corpo adulto.

São José dos Campos, 15 de fevereiro de 2012.

 

João Marcelo Ferraz de Campos

 

Registro o meu especial agradecimento à amiga de infância, Maria da Luz Macedo Vitorino, a qual, eu reencontrei na rede social. Sua atenção aos meus questionamentos quanto a local e pessoas foi fundamental.

 

          INSTANTES DE UMA INFÂNCIA- (Por João Marcelo Ferraz de Campos)

 

Assim é...      

Dos minérios, do chumbo ao calcário a aflorar.

De cavernas, grutas e tuneis a mostrar.

De matas nativas, de madeiras nobres, de imbuias e canelas.

Do Gato do mato, da Jaguatirica e Onças na mata a andar.

Do canto do Sabia e do Canário da Terra a escutar.

Da plumagem do Tucano de fraque a contemplar.

De córregos e riachos afluentes desembocar, no Ribeira suas águas deixar.

Do Ribeira em corredeiras ou meandros, na terra seu leito cavar.

Serpenteando serras, vencendo rochedos, no seu curso seguir.

Dos morros e montanhas, de grotas e vales.

Do roçado de mandioca, do milho, da banana, do mamão, do tomate.

Da criação, do gado e do leite.

Terra de religiosidade presente e crendices.

Da benzedeira e do patuá também.

De superstições, da mãe d'água, da mãe d'ouro e do saci travesso, em crinas de cavalo a manifestar.

Pedaço de chão, de sol quase nunca ausente.

De luar em prata a brilhar.

Do sertão, da corda de embira.

De caboclos e quilombolas.

De gente simples, gente boa.

Assim é, Paranaí.

   Episódio um: Andanças

Em Paranaí tive uma bicicleta vermelha "Bordeaux", aquela, cor de sangue. Freio a tambor contra pedal. Ela me acompanhou até aqui em São José dos Campos, seu paradeiro não sei.

Muitos caminhos eu percorri, deslizava nas beiradas do caminho, sobre as sobras de saibro granulado, num difícil equilibrar.

Lembro bem, como a dominei. Após meu primo Paulo Henrique me ensinar, já confiante, eu então desafiei o morro descer. Pra quê!Foi um tombo só! No corpo, a marca física desta aventura eu trago. Na canela uma tremenda cicatriz. A "magrela" teimosamente no seu caminho achou por bem, o arame farpado encontrar.

As férias escolares permitiam a reunião da família tão numerosa. Meus avôs, tios e primos no Carumbé  se instalavam. O cotidiano agora numa nova dimensão. Era um movimento, um andar á cavalo, trator, nadar e também pedalar.

Nas noites após o jantar, era um esparramar de cadeiras no terreiro, para os adultos conversar. Nós crianças até certo ponto a conversa escutar, na maioria das vezes o propósito era brincar.

Nestas ocasiões, ousávamos pedalar mais longe. Atrevíamos a cruzar todo o Paranaí. Juntos de meus primos Paulo Henrique, Erasmo e meu irmão Zé Waldir, nós íamos, cada dupla numa bicicleta. Na garupa, com visão panorâmica a contemplar e numa leitura visual, fotografar.

Já no perímetro urbano, no bar do Bandeira tinha que parar, era para uma gasosa tomar.

Mais a frente à casa do Antônio Lica avistava, bem ao lado um cercado, reservado para embarque e desembarque de suínos. Após uma enorme valeta perpendicular a rua se estendia até o Ribeira. Era a divisa física com o campo de futebol.

Agora podíamos ver, entre eucaliptos organizadamente enfileirados, o campo de futebol. Num relance poderia imaginar gramado ser. Na verdade, era praga rasteira em profusão, de folhas verdes e crespas parecidas a hortelã.

Imediatamente após o campo, existia a casa de um pia, colega de classe. Infelizmente de seu nome não lembro. Era bom aluno, caprichoso tinha seus cadernos encapados com papel pardo recobertos com plástico transparente com direito a etiqueta definindo a matéria.

Na lateral entre o campo e a casa, não existia divisa física, como cerca ou muro. Ao fundo existia um rancho, do qual seu espaço em dia de jogo era ocupado pelos jogadores e populares. No quintal entre a casa e este rancho via se varais com seus arames debruçados sobre varas de bamboo. Havia também um forno, solitário como se aos jogos assistisse, com suas costas em formato de abóbada, de boca quadrada e chamuscada apoiado sobre quatro colunas de tijolos.

Um pouco mais a pedalar, agora visualizava uma reta em declive, no seu ponto mediano, afastada da rua podia visualizar a casa de dona Reinalda, enfermeira. Casa de madeira, de tábuas a prumo, juntas de topo e suas frestas arrematada com ripas. Construída elevada do chão apoiada sobre pilares de tijolos, com acesso ao alpendre por uma pequena escada.

Isto me remete as campanhas de vacinação na escola. Dona Reinalda entre caixas de "isopor" manipulando frascos e seringas e eu na fila temeroso só a esperar, para a injeção tomar.

Sem muito pedalar, o final da reta se aproximava, iniciando uma curva a esquerda. Na esquina era possível visualizar a casa de dona Aracy. Lá era uma parada quase obrigatória, para seus filhos encontrar. Ao lado da casa havia arvores e nelas balanços, onde sempre ficávamos. Ou sentados pelo chão no alpendre a assistir, o Vavá como um malabares, com muito esforço sobre a bicicleta parada, equilibrar.

Logo então após a curva, o centro de Paranaí se apresentava. À direita o posto de gasolina, onde algumas vezes tinha rumo certo. Num canto atrás, havia um monte de latas de óleo vazias. De várias coletava o óleo restante, para o pé de vela da bicicleta, lubrificar.

À esquerda um enorme espaço em aclive. Lá no alto, a igreja, solitária e modesta com suas paredes brancas e até então com uma única torre. Mais a direita o portão da escola, com seu muro de cimento pré-fabricado.

Na esquina após o posto, o sobrado do Mottin. Numa vanguarda construtiva, como se dizia, era "casa de material". No térreo os espaços comerciais entre pilotis, a terminar. Olhando ao alto estava à moradia toda avarandada.

Em frente avistava o bar dos pais do "Panquinha" (Djalma). Lembro um acontecimento. Véspera do Mundial de Futebol no México (1970). A febre era colecionar, álbum de figurinha com os times participantes. Numa oportunidade ao bar adentrar, logo na soleira, uma figurinha jogada ao chão meu irmão avistou. Era "carimbada", dava direito a prêmio. Levamos pra casa uma bandeja de madeira, em seus contornos apliques de marchetaria e um tampo de vidro emoldurando flores vermelhas de Hibiscos.

Logo a seguir, a direita,  existia o Posto Fiscal, controlador de fronteira. Para a rua apresentava suas grandes janelas, de peitoril baixo e de vidraça com retângulos uniformes.

Um pouco mais a pedalar, à direita a carpintaria. Quase em frente à casa de dona Cinira, professora. Sua filha Arlena e minha irmã Bárbara foram amigas inseparáveis. Ao lado a igreja protestante. Um pouco mais a frente voltando à direita, o Bazar Marques.

Algumas pedaladas a frente, a esquerda pode se ver a Prefeitura. Com mais força no pedal, vamos enfrentando um pequeno aclive. Agora quase abandonando o perímetro urbano, a direita avista o prédio da cadeia.

A partir daí, um pedalar solitário a seguir. A nossa direita o Ribeira no seu curso e nós, direcionados e balizados pelas touceiras de capim a beira do caminho, aguardando a ponte chegar.

Após uma curva fechada a direita, deparávamos com a ponte, admirados pelos seus monumentais arcos paralelos e duplos vencendo o rio, unindo o Paraná a São Paulo. Era de uma beleza majestosa. Então avançávamos sobre ela.

Em solo paulista, sobre o asfalto quente deparávamos com uma subida acentuada em curva a esquerda. Neste ponto obrigatoriamente empurrávamos a bicicleta.

No plano já a pedalar, a esquerda avistava um pouco mais além a cadeia e logo então a churrascaria.

No declive e já sem pedalar, visualizava o posto de gasolina desativado, com suas paredes curvas e vitraux quadriculado, tinha se transformado no salão de baile. Logo a seguir, a casa de dona Bela com o bazar à frente.

Já visualizávamos parte da praça e a curva a direita. Então ao bar do Tico nós chegávamos, na verdade bar Fronteira. Lá tomávamos sorvete para então ao Carumbé retornar.

Episódio Dois: A Mãe D'água

Algumas noites, após o jantar todos na sala a sentar e a postos para televisão assistir. Decepção! Não tinha sinal, só chuviscos na tela a olhar. Meu pai pedia que fosse ao bar do Bandeira, saber o motivo de tal desatino.

Na noite só com a minha bicicleta a pedalar eu ia, na companhia do luar com os prismas dos cristais do saibro a brilhar. A beira do caminho, touceiras de capim recobertas de pó, podia observar.

Confesso! O medo se apresentava. Mas como homem, não poderia deixá-lo manifestar. Eu ia, com minha mente em assombração pensando. Arrepiava-me, ao passar pelo "olho d'água". Acreditava que a mãe d'água viria me pegar. Então eu era só pedalar. Tanta bobagem! Na adolescência fui entender estas crendices populares, são estórias e parte de nosso folclore.

Para alívio, ao alcançar a bifurcação para  Curitiba, iluminação pública encontrava. Lâmpadas mortíferas amareladas, num constante pulsar. Eram atarraxadas em arandelas metálicas onduladas e fixadas por hastes aos postes de madeira lavrada.

Logo à direita, ao bar do Zé Bandeira chegava. O bar era o local para as informações receber. Ali captavam a energia elétrica necessária, para a torre da antena retransmissora. Invariavelmente o motivo era: "Chuvas & Raios".

Atento as recomendações de meu pai: "pé lá, pé cá", num pulo saia a pedalar. No retorno, as mesmas manifestações e aflições. Só tranqüilizava, após passar o "olho d'água" já na curva passando em frente à casa do Fernando Polli.

Continuando a pedalar, já na reta ao longe avistava a cabeceira da ponte, e a direita a casa do Jairo e Valdemar. Já esboçava um sorriso, estava quase chegando.

Um pouco mais a pedalar, agora sobre a laje da ponte, ao longe uns trezentos metros à frente minha casa a se mostrar, refletindo a luz da varanda acesa.

Só mais um pequeno tope, então as margens da estrada alcanço o pórtico de entrada. Eram duas traves equidistantes de tronco de arvores com forquilhas nas pontas, caprichosamente escolhidas por meu pai e afincadas rigorosamente a prumo. Apoiavam um travessão, o qual suportava por correntes uma prancha de madeira dependurada, onde se lia em letras brancas, "Fazenda Carumbé".

Agora relaxado, no embalo e quase sem pedalar sigo em direção da casa. No frescor da noite sinto o aroma de goiaba no ar a flutuar. Ao redor da casa eram inúmeros pés. Escutava o barulho das folhas secas movimentadas pelo vento, a esfregar pelo chão. Em profusão visualizava um mosaico assimétrico desenhado pelo chão, resultante das sobras dos galhos sob o luar, refletidos.

Episódio Três : O sorveteiro

A necessidade de subsistência é inerente à vida. Assim, sempre existiu a necessidade de cada um, como pode defender o seu.

Isto faz lembrar alguns vendedores ambulantes do Paranaí. Com seus cestos de vime a mão e seus quitutes, como pastel. Também de sorveteiros com suas caixas de "isopor" dependuradas ao pescoço, ofertando seus picolés.

Destes, em especial lembro um sorveteiro. Seu nome não vem à memória. Senhor magro, alto e já de certa idade, pelo menos na visão de uma criança. O que mais chamava a atenção eram seus óculos, descansados a ponta do nariz. Com armação dourada e redonda, com lentes de alto grau, tendendo a verde.

Caminhava muito ofertando seus sorvetes. Muitas vezes chegava até o Carumbé, onde meu pai junto dos camaradas, na lida com o gado estava. Nesta terra onde o calor nunca é ausente, assim podia eles ter alguns minutos de frescor.

Era uma pessoa de uma simplicidade descomunal, vendia sorvetes fiado a uma criança, eu. Para saldar tal dívida, tive que recorrer a minha mãe. Como toda mãe, socorreu sua cria, pagando a dívida equivalente a uns picolés.

Este episódio foi exemplar, tirei como aprendizado de conduta e responsabilidade. Lembro bem, foi uma nota de mil cruzeiros, vigente a época. Aquela de face abobora e contra face azul.

Sem contar a repreensão e admoestação sofrida e necessária. Acredito foi uma das primeiras forjadas de meu caráter.

Passado pouco tempo, fico sabendo , o sorveteiro faleceu.

Numa destas caminhadas a ofertar seus sorvetes, a rota do Rocha tomou. Não sei bem onde, mas existia uma trilha que do Paranaí dobrando se além morro, alcançava o vale do Ribeirão do Rocha.

No período de sua falta, muitos populares acreditavam ter ele sido atacado por bicho selvagem. Onça Suçuarana, aquela parda, pelas bordas das matas nativas, hoje Parque Estadual das Lauráceas, eram comum.

Após muito procurar, na trilha para o Rocha, seu corpo foi encontrado, já desfalecido, teve um mal súbito.

Concluo  aqui mais uma parte dos registros memoriais do Autor João  Marcelo  Ferraz de  Campos, já anciosa pelas muitas outras edições!

Até lá!

 

 

 

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